ANDRADE, Olga Valéria Campana dos Anjos (2010)
Instrumentalização Pedagógica Para Avaliação de Crianças Com Risco de Dislexia
Instrumentalização Pedagógica Para Avaliação de Crianças Com Risco de Dislexia.
São Paulo, 2010. Dissertação de Mestrado Acadêmico (Pós-graduação em Educação)
Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho.
Nome do Orientador: Simone Aparecida Capellini
Área: Ciências Humanas: Educação
Assunto: Em Análise
Referencial Teórico: Em Análise
Natureza do Texto: Em Análise
Resumo: A dislexia do desenvolvimento não é ambiental, mas sim uma desordem neurológica de origem genética que afeta em países desenvolvidos 8-10% das crianças que, à despeito de uma inteligência normal e oportunidades adequadas, apresentam uma inesperada dificuldade de aquisição da leitura-escrita. Prejuízos no processamento fonológico, incluindo a consciência fonológica (refletir sobre os sons das palavras tais como rimas, aliterações e fonemas), a memória verbal de curto-prazo e a nomeação rápida, dificultam as conversões letra-som e representam os principais fatores de risco para a dislexia. No Brasil grande parte dos alunos encaminhados a atendimento especializado não apresenta realmente qualquer distúrbio, fato que sobrecarrega o sistema público alcunhado de síndrome do encaminhamento. Este problema é causado principalmente porque o sistema educacional brasileiro e as concepções pedagógicas predominantes não enfatizam (até mesmo inibem) as relações grafo-fonológicas na alfabetização, nem a formação qualificada dos educadores sobre os diferentes transtornos de aprendizagem e suas manifestações. A conjunção desses dois fatores culmina numa quase ausência de critérios bem definidos e instrumentos pedagógicos de rastreamento dos fatores de risco para as dificuldades de leitura que orientem a adoção adequada dos encaminhamentos. Portanto, a presente pesquisa possui dois estudos. O Estudo 1 voltado para uma ampla revisão da literatura sobre a relação entre linguagem oral e escrita, os processos envolvidos na leitura-escrita e suas implicações para a alfabetização e para os transtornos de aprendizagem, objetivando proporcionar aos educadores uma visão científica e crítica da área e do debate em torno da escolha dos métodos de ensino da leitura-escrita. Concluímos que as evidências da psicolinguística experimental dos últimos 40 anos convergem num consenso de que a leitura-escrita depende crucialmente da ênfase na relação letra-som e das habilidades fonológicas, cujos déficits representam os principais fatores de risco para a dislexia. Testes precoces de rastreamento fonológico em conjunto com a avaliação da história familial, educacional e do desenvolvimento da criança podem aperfeiçoar o reconhecimento de fatores de risco sendo muito importantes para a identificação precoce e prevenção das dificuldades de leitura. O Estudo 2 é um trabalho empírico voltado para a capacitação do professor na compreensão do problema da dislexia, tendo como objetivo a elaboração de ferramentas de rastreamento na forma de atividades pedagógicas coletivas que confiavelmente avaliem as habilidades fonológicas em pré-leitores e leitores iniciantes reconhecidas como bons preditores da futura aquisição da leitura-escrita. Com base em tarefas fonológicas clássicas conhecidas como categorização de sons e no protocolo Capellini e Smythe (2008), comprovadamente eficaz na detecção de fatores de risco em crianças brasileiras, nós desenvolvemos e testamos algumas atividades pedagógicas coletivas 10 facilmente aplicáveis em sala de aula, doravante denominadas de tarefas FAE (ferramentas alternativas do educador), como potenciais instrumentos de rastreamento para ajudar na identificação de crianças em risco de desenvolver dificuldades na leitura-escrita. As tarefas FAE consistiram basicamente no pareamento entre figuras e de figuras com palavras que apresentam similaridades fonológicas no início (aliteração) ou no final (rima) e foram aplicadas em 45 crianças no início da alfabetização de ambos os gêneros com idade média de 7 anos e 4 meses, juntamente com o protocolo Capellini e Smythe (2008). O protocolo Capellini e Smythe comprovou sua eficácia confirmando que a consciência fonológica, a memória de trabalho verbal e a nomeação rápida consistem nos principais fatores de risco para a dislexia e com as quais as FAE apresentaram suas mais fortes correlações, além da discriminação fonêmica. Não surpreendentemente, portanto, as tarefas FAE também foram fortemente correlacionadas com a leitura-escrita. Concluímos que escolares em risco de dislexia podem ser eficazmente identificados por meio de ferramentas pedagógicas cientificamente desenvolvidas, testadas e adaptadas para a realidade educacional brasileira, um promissor campo de pesquisa com potencial para ajudar a evitar a síndrome do encaminhamento, bem como indicar as tendências teórico-empíricas mais adequadas para orientar nossa educação.